Sinuca de bico

SINUCA DE BICO
Por Ana Suy

As histéricas falam da falta, facilmente falam da falta. Às vezes são tidas como chatas, porque algumas só sabem falar da falta. Para se defenderem da castração, fazem do furo da falta uma verdadeira hemorragia.
Já os obsessivos, falam do saber. Identificados aos significantes fálicos, grudados naquilo que vela a falta, têm verdadeiro pavor de se desgarrar dali. Como bons neuróticos, estão advertidos da castração, apesar de recalcá-la; assim, bem sabem da fragilidade de suas identificações fálicas.
Na parceria entre a histérica e o obsessivo, enquanto ela fala das suas faltas, ele trabalha para resolver as faltas dela. Não apenas para que ela seja mais feliz ou mais bem resolvida na vida, mas principalmente para que ela pare de falar.
A hemorragia de faltas da histérica convoca o obsessivo a ter que se haver com as suas próprias faltas – e isso para ele é insuportável. Por isso, ele trabalha para ela e para todos à sua volta: para que se calem, para que não demandem nada mais dele.
O neurótico obsessivo é um sujeito que tem pavor de ser sugado pelo outro. Então ele “dá o seu sangue”, por conta própria: é melhor fazer porque ele quer do que porque o outro demanda dele. Ele trabalha, trabalha e trabalha para o outro, dizendo que é para que ele tenha paz. Ele chama de paz o esvaziamento do Outro e de suas demandas sobre ele. Não quer ser visto, quer passar despercebido na vida. Quer passar a sua vida “meio morto”. E assim o faz.
Assim, se por um lado a histérica o reaviva, pois o arrasta para o campo do desejo, por outro lado ele luta bravamente para mortificar o desejo dela, que lhe é tão ameaçador.
É uma “sinuca de bico”.

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Transtornos Alimentares e Psicanálise

“A anorexia não é a perda do apetite, mas de algo que a pessoa faz com a fome.”

De forma maestral, Christian Dunker, comenta os mecanismos pśiquicos que ocorrem nos transtornos alimentares, anorexia, bulimia e obesidade.

Segue o link:

Qual a relação dos transtornos alimentares com a psicanálise?

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Casamento

E o que posso dizer aos cavaleiros do século XXI? Sou péssimo em conselhos e textos de autoajuda. Ainda assim, diria que no mais comum dos casos, os homens que querem se casar e trocam muito de mulher, trocam seis por meia dúzia. Trocar de mulher uma, duas vezes, pode até ser por conta do azar. Ninguém é obrigado a ser feliz casado, para esses eu não tenho nenhum conselho a dar, troquem o quanto quiserem. Mas, para aqueles que se casam e querem ficar casados por um tempo maior, eu sugiro não se deixar levar tanto pelo sentimento de que o que faz nossa vida feliz é a escolha amorosa. Diria que é mais o modo como cuidamos de nossa escolha amorosa. Quando as pessoas me perguntam se estou casado por muito tempo, costumo dizer que nos últimos 35 anos casei-me umas quatro ou cinco vezes. Calhou de ser com a mesma mulher.

Ateísmo preguiçoso

Antes de tudo, [Slavoj Zizek] quer desfazer nosso ateísmo preguiçoso que acha fácil acreditar em “nada” e justamente por isso continuar a fazer o que sempre fez. Ora, este é o núcleo ideológico da nova crença, que entende que acreditar é uma espécie de fé íntima, de zona de princípios pessoais, composta por sentimentos intocados de nossa pureza interior. Não é nada disso. Nossas crenças são fatos interiores, mas acontecimentos exteriores. Elas são o que nós fazemos, e não o que nós achamos que fazemos. Nossas crenças ligam, misteriosamente, atos e desejos. Elas não são explicações retrospectivas que justificam qualquer coisa.
Portanto, não são nossas boas ou más intenções “por trás” do que efetivamente fazemos, nem a consequência imediata de nossos atos que fazem nossas crenças, mas a ligação mágica entre as duas coisas. Esta ligação frágil, contudo absoluta, é o que nos prende ou liberta em uma crença. É por isso que o consenso ideológico atual estimula a inconsequência e a irresponsabilidade diante do que se crê, condena a veemência com que alguém se agarra a uma ideia e valoriza que as crenças devem ser relativas, plásticas, adaptáveis aos contextos mutantes. O que temos aqui é simplesmente um conceito falso do que vem a ser uma crença. Como dizia Pascal: “ajoelha e reza… não se preocupe com a crença, ela virá por si mesma”. Por isso, se você faz a ceia, troca presentes, folga no dia 25 de dezembro e paga a caixinha de Natal, não importa muito que você diga que é por causa das crianças, ou porque é um velho hábito familiar – ou pior, diga que esta é uma festa inventada pelo comércio capitalista que você participa “mesmo não levando a sério”. A verdade, ainda que dolorosa, é simples: você acredita em Papai Noel. Por outro lado, se você acha que a prática do aborto viola algum tipo sagrado de crença na vida, ou se você entende que homossexuais são produto de uma espécie de doença espiritual, não se engane, você é sim uma espécie de fundamentalista de ocasião.

Christian Dunker – A crença na identidade contra a fragilidade do absoluto: a teoria da religião de Žižek

O trabalho com a psicose

No artigo De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Lacan finaliza efatizando que não deseja ultrapassar Freud no que diz respeito à questão das psicoses. Entretanto, o debate recai na seguinte interrogação: por que então Lacan se demora tanto para redigir tal artigo? Trata-se aí justamente de acompanhar o percurso de um clínico. No primeiro momento do artigo, intitulado  De uma questão preliminar, o que está em jogo é o tocante à fase inicial do tratamento, a saber, a transferência e a questão da paternalidade. Lacan resignifica a questão edípica sob a regência do Nome-do-Pai foracluído na ordem simbólica. Na segunda parte do artigo, a todo tratamento possível da psicose, Lacan escamoteia a questão do tratamento para lançar a novidade. O enunciado a todo tratamento possível remete justamente à impossibilidade do todo. Não existe um todo possível, trata-se aí da lógica do não todo. A lógica do funcionamento psicótico é inaprensível. E qualquer tentativa de explicação da psicose é um excesso de razão.

Fonte: Fontana (2015). Psicoses da teoria à clinica: Uma perspectiva freudiano-lacaniana.

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imagem: quadro de Louis Wain, artista que sofria de esquizofrenia.

Precisamos falar sobre a imbecilidade masculina

SOBRE A IMBECILIDADE MASCULINA (ou “o alívio do Deco”)
Por Ricardo Goldenberg

Antes de mais nada, “imbecil” é aquele a quem falta um apoio. Do latim imbecillis, literalmente, “sem báculo”. Mas, atenção, os romanos usavam a palavra para referir-se aos muito jovens: carentes dos atributos de poder e de sabedoria próprios da idade adulta, representados pelo cajado dos sacerdotes e pelo cetro dos reis. Diz respeito aos que precisam apoiar-se em outros para poder andar, por carecerem do bastão da experiência e da educação. A figura é a da criança de mãos dadas com sua mãe.
Todos sabem o que acontece com uma criança quando a mãe não lhe presta suficiente atenção. Recorrerá a todos os expedientes imagináveis para voltar a ser o centro de gravitação materno. Se conseguir com demasiada frequência o resultado será catastrófico. Sobretudo quando se trata de um menino. Passará a vida escravizado ao olhar de que depende imaginariamente o seu valor. Os psicanalistas temos um conceito para pensar isto, chama-se narcisismo. Contra o que se imagina, narcisista não é alguém que se acha – um que fosse auto-suficiente ou cheio de si. Narcisista é o débil precisado do apoio real ou figurado do olhar do outro para se manter em pé. E também contra o que se crê, não são as mulheres mas os homens os mais atrapalhados pelo narcisismo.
Isto posto, vamos à engraçadissima crônica da colunista da Folha de São Paulo Tati Bernardi (“A donzela da ponte aérea”, Opinião, 8/4/16), sobre as agruras de um homem que se imaginou paquerado por ela na sala de embarque da ponte aérea. Resumo da ópera: a moça não enxerga direito, achou que fosse um conhecido, o cara se sentiu visto e olhado e começou a pavonear compulsivamente frente a ela até cair no ridículo total. O que me reteve da crônica, porém, foi a conclusão. Depois de repor seus óculos e verificar não tratar-se de quem tinha imaginado, a jornalista constata que “com a minha mais completa rejeição à sua insignificante pessoa, Deco pode respirar aliviado”.
Queria comentar o alívio do Deco. Domingo passado pedalava no meu ritmo. Lá pelas tantas, ultrapassei um ciclista que andava no seu ritmo. Comecei a contar no cronômetro em quanto tempo ele iria acelerar seu pedalar para me ultrapassar novamente. Foram vintesete segundos. Esta aí, a imbecilidade masculina. O simples fato da ultrapassagem funcionou como um signo, um sinal de provocação. E um marmanjo não só enxerga em todo lugar estes sinais, como se sente obrigado a mostrar ou a medir seu pau quando provocado. É mais forte que ele. Não espanta que tantos pensem que se trata de uma conduta programada no DNA. Mas o importante aqui é observar que nesse momento não somos dois mas três. Estamos na pista: ele, eu e a mamãe dele observando-o desde o céu (não precisa estar morta para encontrar ali seu lugar eletivo). Como se vê, o narcisismo é exaustivo. Voltemos à cena do aeroporto. O olhar astigmático e hipermétrope (sic) da moça, funcionou para o Deco como a minha ultrapassagem para o ciclista na pista, como um gesto de desafio. Não causou o desejo dele, apenas a sua masculinidade foi contestada. Era imperativo mostrar para o resto dos passageiros no saguão a sua condição de macho. Mas, um homem que precisa demonstrar a sua virilidade, é um filhinho da mamãe, independentemente da idade que tiver. A indiferença posterior da cronista o libera das provas. Ele pode desincumbir-se da tarefa. Ufa!
(In)felizmente para alguns, as mulheres não são mães apenas. Às vezes conseguem também ser mulheres. Quando isso acontece, os homens podem descansar do pavoneo. Entretanto…
Entretanto, o jogo não só não diminui como dobra o cacife. Para começar, é jogado entre dois participantes apenas, com a mãe fora da cena. E não ter a mãe entre ele e a mulher apavora os homens. Neste novo jogo tudo não se reduz, como na ponte aérea ou na pista de ciclistas, ao exibicionismo para reafirmar a exclusividade do amor materno. O que está em pauta agora não é a rivalidade com os irmãos para sentar na frente no carro, mas a angústia frente ao próprio desejo, causado por ela. Neste ponto, a imbecilidade, a falta de báculo, toma outro nome, ela se chama broxada. A humilhação masculina por excelência. Antigamente não havia o que fazer, era preciso encarar. Hoje em dia podemos acreditar (mito moderno) que em qualquer farmácia encontrase o remédio contra tal e tamanha humilhação. Sildenafil, claro, a solução química para reaver o falo perdido. Solução? Nem sempre: “larguei dele quando descobri que só me comia com Viagra.” Acho muito justo.Em outro lugar, comentei a frase de uma policial: “eles temem a burla delas; elas, que eles as matem”. Trata-se de uma relação causal: eles as matam por elas rirem deles. Rirem do quê? Da imbecilidade masculina, precisamente. Este sofrimento sem fim pelo cajado, pelo cetro, pelo bastão, pelo báculo… pelo falo cujo segredo os homens acreditam estar nas mãos das mulheres. Uma vez perguntei a um garoto, preocupadissimo com a sua performance sexual, se quando ele jogava bola estava no campo ou na arquibancada. No campo, óbvio! Então, por que fica na arquibancada quando está trepando? Não entendi. (Eu sei que é difícil) Você pensa na bola enquanto joga? … Então, por que não se ocupa da menina que tem na cama, em vez de preocupar-se pelo pinto? A resposta é simples: porque não suporta ficar a sós com ela. O espectro materno é convidado para avaliar o quanto ele é bom com o instrumento de fazê-la gozar. Enfim, isso tudo para avançar um pouco a reflexão a partir da perspicácia da Tati Bernardi sobre o alívio do Deco. Ele está duplamente aliviado: não precisa mostrar as façanhas para a mãe, nem tampouco preocupar-se pela angústia que o desejo por ela lhe causaria. O dia que os homens nos despreocuparmos do falo teremos todos uma vida erótica bem mais divertida e de acréscimo, para alegria das feministas, será o fim do machismo.

Segue o link do original:

https://ricardogoldenberg.files.wordpress.com/…/sobre-a-imb…

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